segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Le hasard n'existe pas

Ontem estávamos voltando da praia quando avistamos na beira da estrada um monte de gente e um homem ao chao. com certeza tinha ocorrido um acidente ali. paramos o carro alguns metros adiante, e o Jacques saiu correndo ver o que tinha acontecido.

infelizmente um homem havia caído com a moto, e nao sabemos como, conseguira fraturar a rotula, o tibia e a fibula (perónio). e, claro, os ossos tinham cortado a carne e estavam expostos.

o homem estava sangrando muito, e o povo em volta não fazia nada. eu já lhes expliquei como funciona o hospital aqui: vc paga antes de receber o tratamento. sem dinheiro, não ha tratamento. o povo ali em volta não fazia nada por dois motivos: primeiro por não saber o que fazer, segundo por não terem como (ou não quererem) pagar o tratamento caso levassem o homem para o hospital.

tudo isso aconteceu a uns 30 quilómetros do centro da cidade. mesmo que chamássemos uma ambulância, primeiro ela não viria (muito longe segundo eles) e se ela viesse (isso se tivesse gasolina nela) levaria tempo demais para chegar (estradas esburacadas, muitos desvios por causa de reforma da estrada, etc). outros motoristas ali presentes recusaram em leva-lo para o hospital de medo que o homem morresse antes de chegar.

a solução era levarmos o homem no nosso carro.

mas antes, era preciso parar o sangramento. infelizmente estávamos com a camioneta da ADRA e nao o nosso proprio carro, e tínhamos deixado nossa mala de primeiro socorros nele. pegamos então as toalhas que tínhamos usado na praia e cortamos em pedaços. o Jacques pôs no lugar os ossos (sem anestesia), e fez um garrote. pegaram então o homem e o deitaram na caçamba da camioneta. duas pessoas foram atras com ele.

dirigi com o máximo de cuidado que podia ter. estava muito nervosa pois o homem ainda estava sangrando (bem menos do que antes). ele gritava e chorava, eu podia ouvi-lo de dentro do carro. horrível! a cada buraco eu tentava passar o mais de vagar possível, e quando dava acelerava o máximo possível para ganhar tempo. após uns 40 quilómetros (escolhemos ir para uma cidade um pouco mais distante, mas com um bom hospital, porque a estrada era a mais praticável), vimos a entrada do hospital. rapidamente os enfermeiros vieram com uma maca e levaram o homem. gente, esse homem gritava tanto!!!!!! me arrepio so de lembrar...

as vezes quando vc chega no hospital assim, ainda mais de noite (eram por volta das 20h00) vc encontra somente alguns enfermeiros, mas nenhum medico. o Jacques tinha decidido que chegando no hospital, ele iria direto para o bloco com o homem para parar definitivamente o sangramento e talvez fazer alguma cirurgia se fosse necessário. chegando la, descobrimos que toda a equipe estava ao completo, e inclusive um cirurgião estava ali! que alivio.

pagamos todo o material necessario para a operação, mais os remédios, e deixamos ainda um dinheiro com um dos parentes para comprar comida. voltamos então para a casa.

o interessante é notar que naquela manhã, saímos de casa com somente 10'000 francos. durante o dia recebi mais 20'000 que tinha emprestado a um amigo. a conta do hospital ficou em 25'000. no final do dia tínhamos ainda 5'000 para comer no caminho de volta (estávamos famintos). tínhamos ainda planejado voltar para casa muito mais cedo, mas acabamos perdendo tempo conversando e tirando fotos na praia, alem de ainda fazermos uma parada totalmente inesperada para visitar um lugar. quando passamos por aquele local, o acidente acabava de ocorrer. 5 minutos antes, teríamos passado e não teríamos visto nada. ultimo detalhe: tínhamos decidido ir a praia, mas não entrar na agua (mar muito forte por aqui). mas no ultimo momento achamos que era melhor mesmo assim levar toalhas, "nunca se sabe"...

eu não acredito em azar.

Abaixo algumas fotos. Almas sensíveis, se abster!


tropéu de gente que chamou nossa atenção

o ferido no chão, e o Jacques com a camisa listrada agachado cuidando dele

detalhe: o povo em volta so olhava e brigava com o homem dizendo "ta vendo o que da correr com a moto?" aff! (o jacques é o cara agachado, e nao o cara de camisa listrada e short laranja)
cortando as toalhas que tinhamos

colocando o homem na camioneta

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tivemos que trabalhar com o que tínhamos na mão: toalhas e um pedaço e papelão para imobilizar a perna.


chegando no hospital de Aneho





lavamos o carro com agua, candida e alcool



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