segunda-feira, 25 de junho de 2012

Petit projet a bien grandit!

Hello pessoal!!!

Lembram do post sobre o projeto de consultas nos vilarejos que Jacques e eu começamos? Pois bem, está pegando forma, crescendo pouco a pouco.

Fizemos um pequeno video (super caseiro com o iPod - desculpem a baixa qualidade!) tentando mostrar um pouco o que realizamos até agora.

Ainda precisamos de apoio, tanto material, técnico como financeiro.

Se estiver interessado em participar de alguma forma entre em contato pelo email: leizaugs @ gmail . com

P.S. verifique se a função legenda esta ativada!!!

terça-feira, 12 de junho de 2012

Payer pour les erreurs des autres - 2

Leram as duas historias do post anterior?
concordam que, no minimo, podemos qualificar o Tiago e o Ricardo de bandidos (ou de outras coisas se quiserem ahah)? os atos que cometeram tiveram uma repercussão negativa direta sobre sua família, não foi?
Eu lhe pergunto: é justo uma pessoa pagar pelo erro da outra?

ando vendo muita gente reclamando e protestando contra o auxilio reclusão que o governo brasileiro supostamente teria aumentado no inicio do ano. leio frases como "preso ganha salario maior que gente honesta", "governo paga preso para ficar na cadeia", "é melhor estar preso do que trabalhar, pois o governo paga salario de preso", "Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa" etc.

perguntinha para quem esta revoltado contra o auxilio ("salario do preso") e seu aumento: vc leu em integra o documento que o ministério da previdência social publicou em seu site sobre o auxilio (documento muitas vezes anexado ao protesto para provar que houve aumento do auxilio)?

se você realmente leu e esta protestando contra o "salario do preso", me desculpe, mas, precisa ler de novo.
vamos la, ai vai um print do documento. pra quem quer verificar a autenticidade do meu print, vá na pagina da previdência social: http://www.previdenciasocial.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22#

Quem recebe o auxilio? veja o ponto numero 1 - O auxílio-reclusão é um benefício devido aos dependentes. o que é um dependente? A lei divide os dependentes em três classes:
  • Cônjuge, companheiro(a) e filhos menores de 21 anos ou inválidos, desde que não tenham se emancipado entre 16 e 18 anos de idade;
  • Pais;
  • Irmãos não emancipados, menores de 21 anos ou inválidos.
 Fazer referencia ao auxilio reclusão como sendo "salario de preso" é um erro. primeiro porque não se trata de salario mas de auxilio, segundo porque o preso não recebe esse auxilio. quem recebe é o dependente (família). e não vão se empolgar achando que todos os dependentes podem receber! é somente um pedido para todos os dependentes.


Continuemos.

basta a pessoa estar presa e então os dependentes vão receber o auxilio? em outras palavras, "filho de preso recebe bolsa do governo automaticamente"?
veja os pontos 2, 3 e 4. Para receber o auxilo:
  •  primeiro: o preso não pode estar recebendo nenhum outro beneficio ou auxilio (tirando algumas exceções).
  • segundo (ponto 2): o preso tem que ser considerado um segurado quando a reclusão (prisão) foi feita. isso quer dizer que o preso precisa estar em dia com suas contribuições mensais. Ou seja, ele deve ter pago regularmente suas taxas de INSS (que são calculadas a partir do salário-de-contribuição - guarde esse nome, falaremos dele mais abaixo). para isso, ou ele mesmo faz o pagamento (no caso de trabalhadores autônomos) ou ele estava trabalhando numa empresa, com carteira assinada, e a empresa descontou de seu salario os valores da contribuição mensal e a empresa tb pagou a sua parte das contribuições. receber um auxilio do ministério da previdência social "equivale" de um certo modo a receber de volta o dinheiro que vc pagou nas contribuições. Os dependentes do preso estarão recebendo o dinheiro que o próprio preso pagou ao INSS. dependentes de presos que não trabalhavam (não pagaram INSS) antes da reclusão NÃO podem receber o auxilio.
  • terceiro (ponto 3): o texto fala de último salário-de-contribuição do segurado. o que seria isso? "o salário-de-contribuição (SC) é a base de cálculo da contribuição dos segurados. É o valor a partir do qual, mediante a aplicação da alíquota fixada em lei, obtém-se o valor da contribuição de cada um deles." bom, o que importa aqui é que vcs entendam que o SC NÃO É o salario do preso, nem o valor que os dependentes vão receber. é um valor obtido por um calculo que a INSS faz. para fazer esse calculo eles levam em consideração o salario do segurado + bônus + benefícios etc que a pessoa ganha mensalmente. dai para saber o quanto deve pagar mensalmente ao INSS eles aplicam um alíquota sobre o SC e conseguem descobrir o valor.
  • Quarto (pontos 4 e 5): para que o dependente receba o auxilio, o valor do ultimo SC do preso não pode ser maior do que o valor que é informado na tabela. essa tabela NÃO diz que o preso vai ganhar R$915,05 como auxilio! leiam o texto e a tabela com cuidado! ali diz que o SC do preso não pode ultrapassar esse valor para que os dependentes possam receber o auxilio!!!
ta, Leiza, bonito tudo isso! mas eu ouvi falar na TV que o governo paga muito dinheiro quando vc esta preso. e ai, quanto é que vai ser esse tal de auxilio reclusão?

o próprio documento explica como é calculado o auxilio. vamos la. pontos 6 e 7. La diz que o auxilio é igual a 100% do salario-de-beneficio. perai, que salario é esse??? falamos anteriormente de salário-de-contribuição (SC) mas não de salário-de-beneficio (SB)! O SB é o valor básico utilizado para cálculo da renda mensal dos benefícios de prestação continuada. ta, traduzindo, o SC é a base para o INSS calcular quanto vc deve pagar a eles. o SB é a base para calcular quanto o INSS vai te pagar de volta ;)
o texto continua dizendo, no ponto 7, que  o salário-de-benefício corresponderá à média dos 80% maiores salário-de-contribuição do período contributivo, a contar de julho de 1994.

então, vamos a matemática, onde:

Auxilio Reclusão = AR
salário-de-contribuição = SC
salário-de-beneficio = SB

AR = 100% do SB 
SB = média dos 80% maiores SC do período contributivo

o calculo do auxilio reclusão é complexo, e cada caso deve ser calculado independentemente. mais uma vez repito, os valores da tabela não são os valores do auxilio... e se vc entender um pouco de matemática, deve ter notado que, na maioria dos casos, se o SC é inferior a R$915,05, vai ser difícil o auxilio ser superior ou igual a isso (a menos que a media dos 80% maiores salários durante o tempo de contribuição for maior do que esse valor)...

voltando as minhas duas historias: vcs acham justo a Jéssica e a Vanessa, e seus respectivos filhos pagarem pelos erros cometidos pelos pais? desde quando pagar pelos erros dos outros é algo justo? infelizmente nesse caso o SC do Ricardo com certeza vai ser maior do que o estabelecido em lei e a Vanessa nem vai poder receber esse auxilio. ao meu ver, os dependentes dos presos merecem esse auxilio, pois, antes da prisão destes a família podia contar com o salario do preso. mas agora que ele esta na cadeia, como vão fazer para sobreviver? é um salario a menos no orçamento familiar! a família já vai sofrer uma pressão psicológica e social enorme, porque então piorar a situação e negar uma ajuda a eles? ainda mais sendo dinheiro que o próprio preso "poupou" junto ao governo? Ou sera que é melhor deixar nos cofres públicos para que, no futuro, sejam desviados por nossos queridos políticos?

estou aberta a comentários, mas somente se  forem referentes ao auxilio reclusão. não publicarei nem responderei a nenhum comentário que não seja referente a este auxilio. e por favor se cometi algum erro não tenham medo de me corrigir, mas forneça dados que apoie a correção.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Payer pour les erreurs des autres - 1

Quero lhes contar duas historias.

Tiago, 29 anos, casado com Jéssica com quem tem 3 filhos, mora na cidade de São Paulo. Ele trabalha numa churrascaria como garçom, com carteira assinada. Tiago já aprontou muito em sua vida, e tem passagem pela policia. Casou com Jéssica pois a tinha engravidado, e por cima eram gêmeos. dois anos apos o casamento, heis que Jéssica engravida novamente. A criança que nasceu tem problemas de retardo mental e precisa de uma atenção especial.

Tiago manteve algumas amizades do passado. Ele os vê regularmente no bar da esquina, quando vai tomar uma birita e jogar baralho.

Jéssica trabalha também para poder ajudar no sustento da família. Ela arrumou um bico no salão de beleza da esquina, e nas horas vagas faz escovas e unhas de clientes na sua própria casa. mesmo com o salario do Tiago (R$700,00) e o da Jéssica (apenas R$400,00 - a patroa do salão não assinou sua carteira e diz que não tem como pagar um salario minimo), eles tem dificuldades a cada fim de mês e as vezes precisam emprestar dinheiro de parentes e amigos para poder pagar as contas.

Um dia no bar um de seus amigos de malandragem lhe fala de um esquema, que pode trazer até 6 mil reais para cada pessoa. Tiago, interessado, pede mais informações. Seria o assalto do cofre da casa de um dono de lotérica de uma cidade vizinha. "Trabalho sussa" pois o próprio segurança da casa do homem estaria no esquema... Tiago topa fazer parte da equipe.

O assalto acontece no dia marcado. Mas com complicações, pois o dono do cofre chega inesperadamente na casa bem na hora do assalto. Tiago então saca sua arma e abate friamente o homem. Todos fogem. mas alguns dias depois são descobertos: o guarda da casa fez um acordo com a policia em troca dos nomes dos bandidos.

Tiago é sentenciado a 24 anos de cadeia.

Eu lhe pergunto agora: o que que a Jéssica vai fazer agora?

Segunda historia:

Ricardo, 38 anos, fez faculdade de administração e contabilidade. fez até MBA no exterior, e hoje trabalha como vice-presidente executivo de uma empresa multinacional. com carteira assinada obviamente.

Ele é casado com Vanessa, que montou uma pequena empresa de consultoria, com a ajuda de Ricardo. Eles tem 3 filhos, um que faz intercambio na França, e dois que estudam no Brasil. A sua renda mensal, somando o salario de ambos, é de em média 18 mil reais (no minimo).

Ricardo sempre foi muito bom em cálculos. em algumas conversas informais ele fez piadinhas sobre desviar dinheiro da empresa, fazer uma fraude ali, outra aqui. Até que um dia ele viu no olhar do diretor financeiro algo diferente, como quem diria um sinal de entendimento. Naquele mesmo dia ele foi conversar em particular com ele e acabou lhe expondo um esquema que eles poderiam por em pratica para desviar um pouco do dinheiro da empresa. afinal, uma multinacional desse tamanho não sentiria falta de tao pouco dinheiro!

O esquema foi tao bom que puderam progressivamente aumentar o desvio. foi assim que Ricardo conseguiu pagar o intercambio do filho, o novo carro, o casarão no mais novo condomínio da classe alta da cidade.

Um dia, um funcionário da empresa se da conta que algo esta errado nas contas. Ele imediatamente avisa o diretor financeiro. este, vendo que tinha sido descoberto, oferece ao empregado uma parte de lucro no esquema. mas o funcionário recusa, e, acaba levando o caso para o Diretor da empresa.

Uma CPI é aberta, nomes são citados, fatos são verificados, Ricardo é descoberto! uma ação judiciaria é aberta contra ele e todos os envolvidos. Ele é condenado a pena de prisão, além de ter que reembolsar o que roubou, com juros e multa.

Ricardo perde todos os seus bens, e como ele tinha ajudado a Vanessa a montar sua empresa, alguns bens da empresa estavam em seu nome. Esse bens também se foram. Vanessa, cheia de dividas do Ricardo, acaba perdendo também sua empresa.

eu lhe pergunto: o que que a Vanessa vai fazer agora?

continuo no próximo post ;)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

vivre en communauté

o que significa viver em comunidade? até eu vir para o Togo em não tinha entendido ao certo o que era uma comunidade.
é interessante ver como esse conceito de comunidade esta ligado em tudo o que fazemos aqui. posso citar vários exemplos:
  • Falecimento: quando falece alguém, no brasil, em 24 horas, as vezes um pouco mais, o velório e o enterro são feitos (na suíça a prazo é de no máximo 10 dias - tempo para avisar a todos, fazer arranjos, publicar no jornal, etc). a família deplorada, em ambos os países, recebe a visita de amigos íntimos, mas em geral o luto é feito de forma discreta e de uma certa forma solitária. já aqui no Togo, quando uma pessoa falece, a família - e quando falo de família aqui quero dizer os pais, cônjuge(s), filhos, tios, primos, irmãos e o escambau - se encarrega de alugar cadeiras, que serão dispostas dentro do quintal ou num lugar onde possam receber muita gente, e então todos os amigos, familiares vizinhos, colegas enfim, toda pessoa que conhecer, nem que seja o padeiro que lhe vende pão de manha na padaria, vão vir visitar a família para demonstrar seu apoio. e esse ritual pode durar dias, até semana. em seguida quando será feito o velório e enterro (se vc leu meu post sobre enterro, sabe que pode levar anos antes de alguém ser enterrado aqui), novamente, a família recebe todo esse mundarel de gente para saudá-los e dar lhes apoio. por causa disso já me encontrei visitando totais desconhecidos pois tinha falecido um tio na família e meus sogros os conheciam de algum lugar. 
  •  Educação das crianças: é interessante ver como as crianças daqui são educadas. a educação é feita em comunidade, pela comunidade. exemplo: se eu estiver andando nas ruas do meu bairro e encontrar meu pequeno vizinho fazendo alguma besteira, o que eu faria se estivesse no Brasil? "moleque, pare de fazer isso senão chamo sua mãe/pai!". se a criança não obedecer, chamo o responsável ou o levo até ele, não é? Aqui, a coisa é "mais direta". posso tomar o lugar do responsável, pegar a criança e lhe dar uma surra se eu achar que merece uma. e quando a criança for pra casa, leva outra surra por ter aprontado na rua e levado surra do vizinho ahahah. Professor na escola trata as crianças como se eles mesmos fossem os pais (ou sejam dão amor e carinho e surras também... mais surras do que amor mas tudo bem). na igreja, na hora do culto, nenhuma criança fica com os pais. todas, desde que saibam sentar sozinhas, se assentam nos primeiros bancos e ali as tias ficam de olho... aie de vc se der um pio! mas ao mesmo tempo, se um bebe precisa ser trocado, qualquer pessoa pode trocá-lo, precisa ser alimentado, tendo comida, qualquer um o alimenta e assim vai. também notei que alguns bebes passam de colo em colo, sem que seus pais fiquem preocupados procurando saber onde exatamente estão. eles sabem que no final do culto (ou do dia) alguém vai devolvê-lo a eles. só para constar, já avisei o Jacques que nossos filhos não irão sentar-se la na frente sozinhos (sentaremos la com eles) e nada de ficar passeando de colo em colo. não mesmo!
  •  Eventos familiares, tomada de decisão: quando meu cunhado recebeu a noticia que tinha conseguido uma vaga para estudar numa escola conceituadíssima na frança, meu sogro convocou a família toda para discutir todos os detalhes da viagem dele. quando o Jacques e eu decidimos nos casar, a família foi convocada novamente para organizamos os comités de gestão das diversas tarefas ligadas ao casamento. foi então estabelecido quais as tarefas, quem ficaria seria o chefe da equipe de tal ou tal tarefa, e quem estaria nas equipes. eu nunca tinha visto uma organização dessas e nunca tinha pensado que a família inteira trabalharia de tal forma para organizar o casamento tradicional. no começo pensei que era coisas do meu sogro, mas faz apenas alguns meses, um casal amigos nossos decidiu também se casar, e fomos convocados para a tal reunião... tinha mais de 20 pessoas, e cada uma ficou encarregada de fazer algo. cada vez que algo importante esta para acontecer, ou que uma decisão deve ser tomada, o chefe de família convoca a todos para que haja uma discussão e uma tomada de decisão, em conjunto, mesmo se a decisão tiver que afetar somente uma pessoa na família. todos devem participar.
  • No trabalho. nesse ponto estou penando muito! sabe aquele assunto que vc, como diretor, poderia resolver dizendo um sim ou um não, impondo sua vontade e ponto final? pois bem, não tente fazê-lo aqui. pois por mais racional e correta que seja sua decisão, se vc a tomar arbitrariamente, e alguém se sentir lesado por não ter sido consultado, vc vai ouvir neguinho reclamando do seu "estilo" de gestão pelo resto de sua vida. nada de ser individualista e autônomo. decisões devem ser tomadas em conjunto.
Parece que não mas viver nesse estilo de comunidade tem seu lado bom. eu sei que em caso de encrenca, posso contar com o apoio da comunidade. ha uma certa solidariedade que não encontrei em outro lugar. nossa vizinha ontem de manha atolou o carro no barro. ela teve que descer no meio da lama e sujou as sandálias. do nada apareceu um moço, que, pegou as sandálias e foi lavá-las no seu lugar para ela não ter que pisar no barro novamente. outro dia Jacques e eu nos perdemos num bairro procurando um endereço. uma moça que passava na rua foi nos guiando, correndo na frente do carro (ela não quis subir), até o lugar que procurávamos. acredito que andamos mais de 1,5 quilômetros com ela na frente do carro. quem faria isso no Brasil ou na Suíça? um apoia o outro, um cuida do outro. é, viver em comunidade as vezes tem o algo de bom.