quarta-feira, 24 de agosto de 2011

un an déjà.


ontem fez um ano que cheguei no Togo. nunca esquecerei minha primeira noite neste pais. cheguei por volta das 22h00, deixamos as bagagens no escritório e me levaram para o hotel, onde eu passaria uma única noite já que no dia seguinte tinha que viajar para suecia para uma reunião da ADRA.

o quarto que me deram era bom, com uma cama de casal, ar condicionado, TV, telefone e banheiro decente. o que eu nao sabia (descobri no dia seguinte) era que o hotel abrigava também um bar e uma "boate" mais do que suspeita.
no meio da noite fui acordada por "rugidos" estranhos e regulares. nao entendi de cara o que estava acontecendo. os rugidos foram ficando mais fortes. foi ai que minha ficha caiu! o hotel servia também como motel! tive o "privilegio de apreciar" a performance do meu caro vizinho de quarto duas vezes ainda durante aquela noite.

confesso que fiquei um pouco assustada depois disso. como a sociedade deste lado do mundo via a questão da sexualidade? este tipo de acontecimento era algo comum? socorro, onde é que eu fui me enfiar???
felizmente, descobri que tratava-se de um evento isolado. mas é verdade que a sexualidade é tratada de forma diferente aqui, mas falarei disso outra vez.

um ano nesse pais… um ano cheio de altos e baixos, de vitorias e derrotas. um ano mais que cheio de desafios!
gostaria de mencionar alguns pontos marcantes desse ano:

1. meu (futuro)marido: foi aqui nesse lugar que encontrei o Jacques. juntos ja realizamos muitas coisas, e estamos construindo pouco a pouco nosso futuro. é incrível a sensação de ter alguém que te compreende, mesmo sendo de outra cultura totalmente diferente da sua. alguém que te apoia e cuida de ti. alguém que te ama.

2. trabalhar para a ADRA: é verdade que eu trabalhava para a ADRA antes, mas aqui as coisas sao totalmente diferentes. eu amo esse trabalho! é verdade que as vezes fico muito desanimada (até tive uma crise de nervos das bravas em dezembro e acharam que eu iria desistir - esqueceram que sou brasileira ahahah), mas sempre que isso acontece nunca esta relacionado directamente com a ADRA mas sim com as pessoas ao meu redor.

3. viagens: pode ser contado como ponto alto pois amo viajar e conhecer novas pessoas e lugares, mas tb é o ponto negativo pois o Jacques fica em casa e ele sofre muito com minha ausência. em um ano visitei 14 cidades em 8 países, peguei o avião 33 vezes (obaaaa milhaaaaas) e fiz minha primeira viagem para a Ásia (duas vezes uuuhuu). agora soh falta ir para Oceânia e terei visitado os 5 continentes ;)

4. meu gato: nao poderia esquecer o Gribouille. gente, quem me conhece sabe que eu sonhava em ter um gato desde me conheço por gente. minha mae é alérgica e nunca pude ter um bichano em casa… essa é a primeira vez que moro sozinha e tenho condições financeiras para ter um gato… nem tinha ainda arrumado a casa depois da mudança que o Gribouiile já fazia parte da minha vida.

5. meus amigos: apesar da distancia, consegui manter contacto com amigos preciosos. pude ate passar o natal e ano novo com alguns (Obrigada Moa por ter vindo de "tao" longe; Chico, o reveillon foi inesquecível; Nata, obrigada pela amizade e confiança! definitivamente a viagem foi um ponto marcante para ambos). ao estar tao longe de casa e de tudo o que conheço as amizades que mantenho via e-mail, facebook, twitter e blogspot (e google+ talvez) sao PRECIOSÍSSIMAS para mim!

Sem Deus e sua ajuda e protecção eu nao teria chegado ate aqui. por isso sou profundamente grata. tenho absoluta certeza que foi Ele que me mandou para o Togo, com um (ou vários) propósitos. esta sendo uma experiência maravilhosa viver desse lado aqui do mundo. Viva a Africa!!

Fala sério, nao sou tao Yovo assim nao... humpf!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

J'aime mon travail!

andei super ausente da net ultimamente. minha vida tem sido uma loucura nessas duas ultimas semanas. carro quebrado (desde aquele dia fatídico ainda não esta funcionando), visitante doente, malaria (minha primeira malaria), outra visitante, problemas bancários, novo projeto da ADRA e UNHCR e projeto leigo da igreja local, podem imaginar como é fácil perder o controle!

mas hoje quero lhes falar do novo projeto da ADRA e do UNHCR.
como todos devem saber (se não souber sorry but shame on you!), a costa do marfim está passando por uma crise politica muito séria. resumindo: o ex presidente ao descobrir que não foi reeleito recusou de deixar o cargo. a população se dividiu em dois, os contra e os prós ex-presidente. houve conflito armado e chacinas. as pessoas fugiram. quase 5 mil refugiados da costa do marfim chegaram ao Togo. precisam de ajuda.

a maioria dos refugiados deixaram absolutamente tudo para trás. vieram com a roupa do corpo e nada mais. muitos percorreram a distancia entre costa do marfim e togo a pé, atravessando o Ghana. famílias estão separadas, pois alguns membros não puderam continuar a jornada e tiveram que ficar para trás. crianças chegaram ao togo desacompanhadas. não sabemos exatamente quem são ou o que aconteceu com seus pais, mas estão aqui e precisam de assistência.

o UNHCR (www.unhcr.org - international www.acnur.org/t3/portugues/ - brasil) é a agencia das nações unidas para refugiados e sempre coordena todo trabalho feito nessa área. eles sempre trabalham com o governo local e ONGs.

quando um refugiado chega no togo, ele precisa se apresentar ao centro de cadastramento para obter o status de requerente de asilo. em seguida seu pedido é analisado, e se realmente ficou comprovado que ele é quem ele diz ser e se ele se enquadra com o perfil de um refugiado, ele recebe o atestado de refugiado. se ele tiver como se manter, pode ficar na cidade. se ele não tiver como se manter, ele é transferido para o acampamento de refugiados que foi montado a uns 15 quilômetros do centro da cidade. la ele receberá alguns artigos como coberta, sabão, utensílios de cozinha, etc e uma vaga numa tenda ou no alojamento.
atualmente temos mais de 2,5 mil pessoas no acampamento.

viver no acampamento não é fácil. as tendas fornecidas foram criadas para abrigar até 5 pessoas, mas no momento somos obrigados a por até 15 pessoas ali, por falta de tendas e local para armá-las. há horários que devem ser respeitados, por questão de segurança. o portão do acampamento abre as 5:00 e fecha as 16:00.

aqueles que o desejam podem procurar emprego na cidade. outros podem começar pequenos comércios ou atividades geradoras de renda. na frente do portão do acampamento uma pequena feira se criou, onde é possível comprar carnes e peixes frescos, legumes, roupas, entre outras coisas.
o UNHCR não gerencia tudo sozinho. ele chama ONGs para prestar serviços como atendimento medico, distribuição de alimentos, etc.

a ADRA Togo, em parceria com o UNHCR esta encarregada de 3 atividades do acampamento: Água e saneamento, distribuição de alimentos e microcrédito. água e saneamento engloba limpeza do acampamento, construção e manutenção das latrinas e banheiros. distribuição de alimentos consiste em organizar a distribuição mensal de alimentos de base como arroz, óleo, açúcar e farinhas enriquecidas (CSB+). Microcrédito consiste em analisar projetos de atividades geradoras de renda (AGR) e financia-las.

semana passada organizamos a primeira distribuição de alimentos. foi uma catástrofe! os refugiados não queriam obedecer as ordens dadas, minha equipe estava desorientada e com medo dos refugiados, os funcionários do UNHCR tão pouco sabiam como resolver a situação, e para ajudar havia somente dois policiais (mais de 1200 refugiados no local) e acabamos por perder o controle. tive que sair correndo a um certo momento pois um refugiado enfurecido (pedimos para ele entrar na fila e ele se ofendeu) agarrou um banco de madeira e queria espancar a todos.

lidar com os refugiados não é fácil! são pessoas que sofreram muito e estão traumatizadas, se sentem ameaçadas o tempo todo. muito dentre eles cometeram atrocidades e tiveram que fugir. estão se escondendo entre os refugiados, e temem ser reconhecidas e mortas. outros, no entanto, não tinham motivos reais para fugir, e vieram com outros na esperança de que seriam enviados como refugiados para a Europa ou estados unidos (melhor esperarem sentados!). outros ainda vieram para fazer baderna e qualquer coisinha para eles é motivo de revolta e confusão.

ontem organizamos outra distribuição, que foi um sucesso! mudamos nossa estrategia e conseguimos servir mais de 500 famílias em menos de 5 horas. ninguém reclamou da demora ou desleixo de nossa equipe. realmente estavam de parabéns.

apesar dos desafios e do perigo as vezes, estou apaixonada por esse trabalho. amo estar ali, no fervo, vendo a equipe ADRA correndo pra la e pra cá, resolvendo isso ou aquilo. mas no final do dia tenho que voltar para o escritório e seu computador e fazer a parte chata do trabalho (relatórios e mais relatórios). mas tudo bem, isso tudo vale a pena se fizer diferença na vida de pelo menos uma pessoa!

FOTOS: por questões de segurança, não podemos divulgar fotos dos refugiados e do acampamento em Lomé. Heis então algumas fotos de refugiados da costa do marfim tiradas pelo UNHCR em outros acampamentos. A realidade em nosso acampamento é muito parecida com a dessas outras vitimas do conflito.  fotos tiradas daqui: http://www.unhcr.org/pages/49c3646c25d-page1.html


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Un mort qui coûte cher!

prometi semana passada falar sobre os enterros no Togo.
olhem a foto que estou postando. ela foi tirada do jornal no dia 25 de janeiro 2011:


notaram algo estranho? mesmo se vc não entende nada do francês, deve ter notado a data do falecimento: 18 de novembro de 2007. não aparece na foto mas o enterro seria no dia 28 de janeiro de 2011.

o enterro para os togoleses é algo muito sagrado. é necessário fazer uma festa em homenagem ao morto. vela-se o corpo e pela manha é enterrado. pouco a pouco o costume ocidental foi se misturando ao costume local, e hoje temos uma mistura estranha que define o ritual do enterro.
primeiramente, tem que convidar a todos. com convites, como em casamentos! no convite coloca-se todo a programação do enterro, bem como uma biografia e varias fotos do morto. contrata-se uma banda para tocar, aluga-se cadeiras e uma grande tenda que sera armada na rua em frente a casa do morto. para pessoas conhecidas, até 200 pessoas podem comparecer.

geralmente começa as 18h00 e se encerra no dia seguinte no cemitério. a primeira parte é reservada para pregações e rituais religiosos que os Yovos ensinaram. as vezes na família existem cristãos de diferentes denominações e animistas. cada um quer que seu pastor fale... estive em um enterro onde 3 pastores com suas respectivas bandas e corais se apresentaram. levou mais de 4 horas.

apos os cantos e pregações, vem a segunda parte muito mais animista. ao som dos tambores começa então a danças misticas para descobrir "quem matou o morto", que dura a noite toda, regada a sodabi (vinho de palma) e outros álcoois fortes. alguns incarnam espíritos que vão conversar com o morto e este lhes dirá quem o matou. a família do morto tem que fornecer as bebidas e a comida. trocam-se presentes também.

fato (engraçado para quem gosta de humor negro) que aconteceu no enterro do avo do Jacques: as pessoas começaram as danças. o Jacques e seus pais, sendo cristãos e não querendo participar desse rituais misticos, tinham ido para casa logo apos a pregação. o povo encheu a cara e começou a dançar. um dos dançarinos, trebado, tropeçou numa pedra no meio da dança e arrebentou a cara no chão. tinha um corte feio na testa, que sangrava muito. chamaram o Jacques para vir socorrer o homem. o Jacques foi até o lugar e todos estavam apavorados. diziam que o morto tinha puxado o pé do homem e isso era a prova que ele tinha matado o veio. até hoje falam que esse homem tinha alguma culpa nessa morte senão ele não teria se machucado assim.

isso tudo custa muito dinheiro. a família toda tem que ajudar. enquanto não tiverem dinheiro suficiente para fazer uma festa daquelas pro morto, eles o mantem congelado (isso tb custa caro). chegam a fazer empréstimos no banco.

quem lucra com os enterros são os frigorificos e os que alugam cadeiras e tendas... metem a faca mesmo e aproveitam pq sabem q o povo esta disposto a pagar o que for para dar um enterro "decente" ao morto. ouvi falar de um enterro que custou 5 millioes (R$16'000). na maioria das vezes a pessoa morre no hospital publico pq ngm tem dinheiro para pagar o remedio, mas dai gastam fortunas para enterrar... vai la entender!

acredito que o homem da foto ali morreu em 2007 e desde entao a familia tentava juntar dinheiro para enterrar... ficou mais de 3 anos congelado antes de ser enterrado.

ultimo detalhe: todo togolês "tem" que ser enterrado em terras togolesas... se morrer fora do togo, a família vai fazer o possível e impossível para repatriar o corpo e fazer todo esse ritual... passagem área para mortos não são baratinhas não...

De justesse

por pouco eu não estaria aqui hoje.
essa semana foi loucura para mim! ganhamos um grande projeto com o UNHCR e estamos em pleno processo seletivo para as 15 vagas que se abriram com o projeto. os salários são altos, e todos querem trabalhar com a gente. a pressão esta sendo muito grande, é fulano querendo me bajular para que eu contrate seu filho, outro para que eu contrate seu primo, ou ainda ameaças ou suplicações para que eu contrate a pessoa que estão indicando. sem contar que o carro quebrou na segunda feira e que na quarta de manha o tio do Jacques faleceu...
meu nível de stress esta elevadíssimo.
na sexta depois de uma reunião bem dinâmica com o UNHCR, passei no mecânico para pegar o carro. não fiquei satisfeita com o concerto (problemas na embreagem e cambio), mas dava para usar o carro no fds e devolve-lo na segunda para ultimo ajustes.
peguei o carro e fui para casa. menos de um quilometro depois, quando eu estava na avenida (avenida de 3 fileiras e cada mão), ouvi um barulho estranho. parei o carro e dei uma olhada geral. nada. decidi fazer meia volta e entregar o carro para o mecânico verificar. ao atravessar a pista de mão contraria (também 3 fileiras), bem quando eu estava perpendicular a pista ouço aquele barulho assustador e o carro dah um pulo pra frente e para. detalhe: em plena hora do rush! foi por pouco que não fui atropelada ali no meio. sai correndo e o que vejo... a roda da frente do lado do motorista tinha se desencaixado. como que uma roda de carro sai assim sem mais nem menos???
o povo começou a gritar e me xingar "tira esse carro dai!!!" "que que tu tah fazendo sua piiiiiiiiiiiiii", etc.
eu estava em panico, ligando para o Jacques e o Alex (motorista da ADRA) para pedir ajuda e correndo ao redor do carro. dai dois militares apareceram e tomaram conta da situação: um desviando os carros e outro organizando o conserto da roda. com a ajuda de 4 jovens eles conseguiram por a roda no lugar e empurrar o carro. pequenos detalhe: na hora de fixar a roda, me perguntaram "onde estão os parafusos?" que parafuso?? não estão ai na roda??? o mecânico tinha me entregue um carro com uma roda solta, SEM PARAFUSOS!!!!!!!! tivemos que pegar os parafusos dos outros pneus...
uns 40 minutos depois meu motorista finalmente chegou com o aprendiz do mecânico. gente, foi a primeira vez que perdi total controle aqui: gritei gritei e gritei contra o aprendiz e o Alex (fora ele que recomendou o mecânico "amigo" dele). eu estava furiosa, nem me lembro ao certo o que falei pra ele, só gritava e gritava.
por fim voltamos a ADRA, onde peguei outro carro e fui ver o Jacques que estava de plantão no hospital e estava preocupadíssimo com a situação.
por volta das 20h00 voltei pra casa. comi um sanduíche que eu mesma fiz e fui deitar.
não dormi nem 20 minutos, comecei a passar mau. não vou dar detalhes pq é nojento mas saibam que em uma noite fui ao banheiro 6 vezes... (e meu gato me mordeu duas vezes pra ajudar). as 5h00 não aguentava mais, peguei o carro e fui pro hospital. ao chegar la o Jacques brigou comigo por eu ter esperado tanto tempo para vir. me puseram no soro e fizeram analises... uma tal de "levedura brotante" (budding yeast) tinha tomado conta do meu intestino... fui tratada como uma rainha! tive a visita de 3 médicos e 7 enfermeiros, sempre perguntando como eu estava e se precisava de algo (eheheh ser a futura esposa do medico e fazer bolo para o povo de plantão rendeu kkkkkk). tive alta as 13h00.
hoje, segunda feira, estou de volta ao escritório, me sentindo muito bem. vieram me fazer um relatório sobre o carro. aparentemente um dos aprendizes estava cuidando da roda e seu celular tocou. ele atendeu e esqueceu de terminar o serviço. quando me viu indo embora com o carro não disse nada. adivinham o que aconteceu com ele? RUA!!! um desleixo desse poderia ter me matado. se eu não tivesse decidido fazer meia volta, teria ido reto, e ali começa uma bela decida onde todos os carros pegam velocidade... a roda teria se desencaixado, eu teria perdido o controle do carro e teria atropelado algumas motos, antes de me matar.
uma coisa ainda não ficou clara: pq mexeram na roda se o problema era o cambio? ja perguntei ao mecânico mas ele não me respondeu...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mais merde alors!

Eu que achava que o SUS era ruim… depois do que passamos nessas ultimas 24 horas acho que é um paraíso!

O tio do Jacques ficou doente. A família avisou que ele estava passando mau neste fds. Na segunda feira, foi internado no hospital publico de Lomé.

Não gosto de hospitais. Sofro de emetofobia e fico muito nervosa quando tenho que ir ao hospital, pois alguém passar mau perto de mim. Por isso não tinha ainda visitado de verdade o hospital de Lomé. Gente, vcs não fazem ideia de quão sortudos somos!!! Nunca mais quero por os pés la!

Como funciona o hospital publico aqui : ao chegar, pega fila para falar com o medico. Dai se precisar eles internam a pessoa. O hospital fornece cama, colchão, um teto, médicos e enfermeiros. O resto, vc tem que se virar. O medico faz uma lista dos tratamentos e materiais que vai precisar, e você vai pagar no caixa e na farmácia e traz tudo para ele. Sem isso ele não fara absolutamente nada. não é culpa dele pois o hospital não fornece nenhum material, como ele pode trabalhar então? gente, quando falo nenhum é nenhum: tem que comprar luvas, agulhas, compressas, mangueiras para perfusão, tesouras, etc. acho que só o bisturi que não precisa comprar e olhe la…

Geralmente os familiares acompanham o paciente, mas não ha espaço para eles… então acampam nos corredores. Se ficar internado 15 dias, a família ficara acampando 15 dias o mais perto possível do quarto. trazem lençóis para deitarem no chão, baldes, comida, talheres, roupas, etc. e acampam com outras famílias ali. Cozinham, comem, tomam banho tudo ali mesmo.

O tio do Jacques precisava de uma punção lombar. Entregaram o pedido junto com algumas receitas medicas para seus acompanhantes. Isso foi no dia 25 a noite. Uma das meninas que veio com a família pegou os documentos e os colocou no bolso e só os entregou no dia 26 de manha para o primo responsável pelos pagamentos. Ele pegou os documentos, ligou pra gente dizendo que ia no vilarejo (40km dali) buscar o dinheiro e que voltaria rapidinho. A noite por volta das 18:00 eu e o Jacques chegamos la querendo ver o resultado do exame. Qual não foi nossa surpresa ao descobrir que o primo não tinha voltado! Ligamos para ele, que respondeu « tou chegando »… ele chegou hoje de manha, dia 27…

Eu fiquei revoltadíssima! Pq não nos disse que tinha dificuldades em achar o dinheiro??? Eu e o Jacques tentamos consertar a situação antes mesmo que ele voltasse do vilarejo, e naquela noite corremos pra todos os lados pagando os exames, comprando os remédios, etc. nem vou entrar em detalhes sobre isso, seria longo demais! O que posso lhes dizer é que levamos quase 3 horas para ter os recibos e documentos validos nas mãos. Quando entregamos ao medico (por volta das 21:00) ele disse que não poderia fazer o exame naquela hora e que deixaria para o dia seguinte. E marcou mais um exame! E la vamos nos correr atras disso mais uma vez… o Jacques estava super mega frustrado pois ele mesmo poderia fazer a punção mas ele não é funcionário do hospital...

Hoje de manha levantamos as 5:00 pra ver se dava para ter tudo pronto para que os exames fossem feitos as 7:00. Corremos feito loucos novamente (e nada do tal do primo com o dinheiro aparecer). Quando estávamos para pagar a ultima conta, chegou a noticia: ele faleceu. E o tal do primo do dinheiro nem sinal de vida tinha dado…

Que frustração!

Não existe estoque de remédios nos departamentos, nem na UTI!! Ou seja, se a pessoa entrar numa crise convulsiva por exemplo e o medico precisar dar uma injeção ele tem que escrever a receita, entregar para a família que sai correndo para a farmácia, onde primeiro tem que pegar a fila para saber o preço do remédio e depois a segunda fila onde paga e retira o remédio, dai sai correndo de volta para a UTI orando para que a pessoa ainda esteja viva. E se chegar tarde demais, pois bem, o reembolso do que pagou não é garantido…

O Jacques me contou a historia de uma estagiaria francesa que ele conheceu no Mali. Ela estava ajudando a parteira quando a coisa complicou. era preciso injetar uma substancia (não lembro do nome, algo parecido com « oxcitocina », sei la) que salvaria mãe e bebe. Ela escreveu a receita e mandou a família buscar. A injeção custava 300XOF (R$0,99) mas não tinham dinheiro e então não compraram. também não disseram nada a ninguém e não pediram dinheiro emprestado. mãe e bebe morreram. quando a estagiaria soube de toda a historia ela pediu demissão. Avisou os pais que voltaria para a frança, que desistia do estagio. Foi encontrada morta no dia seguinte em seu quarto com uma carta explicando que não poderia viver ao saber que tinha perdido duas vidas por causa de tao pouco. Hoje seus pais criaram uma associação em seu nome que ajuda famílias carentes em países africanos.

Eu sei que a punção não teria salvado o tio, mas pelo menos teríamos um diagnostico e poderíamos ter tentado um tratamento. Dois dias passaram e nada foi feito e agora é tarde demais.

O que me deixa mais revoltada é que vão congelar o corpo e começar a arrecadar dinheiro para dar ao morto um enterro sublime. Algumas famílias chegam a gastar 5'000'000XOF (mais de R$16'500)! Talvez leve anos para conseguir ter o dinheiro necessário. Mas falarei disso em outro post.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Qu’est-ce que tu dis??

O Togo é um pais francofono oficialmente. Mas o idioma mais falado é sempre o idioma local. Cada região tem seu idioma local. Este é o idioma que as crianças aprendem em primeiro lugar. Depois, na escola, é ensinado o francês. Quando vou a feira é comum encontrar pessoas que não falam o francês, pois nunca foram a escola.

O francês é minha língua materna, e este foi um dos motivos de ter escolhido o Togo para trabalhar. Eu já estava preparada para ouvir as pessoas falarem com um sotaque diferente daquele que costumo ouvir, e talvez algumas diferenças minimas no vocabulário. Mas não foi bem assim.

O sotaque realmente é diferente, mas não impede a comunicação. O que dificulta tudo é o vocabulário e a formação de textos. É incrível como a arte da comunicação pode ser tao complexa.

Um exemplo de vocabulário muito diferente do meu : dividimos o dia em quatro partes, matin (manha), après-midi (tarde), soir (noite antes de ir dormir) e nuit (noite ao ir dormir ou depois da meia noite). Isso foi o que aprendi no francês da « frança ». ao perguntar a uma pessoa o horário do encontro que teríamos naquele dia, ele me disse « venez ce soir » (venha esta noite antes de dormir). Não satisfeita perguntei o horário exato e ele me respondeu « 14h00”. Como assim 14h00??? Foi ai que descobri que no Togo “soir” significa “tarde”! imagine se eu não tivesse perguntado o horário exato…

Problemas com o vocabulário até que são fáceis de resolver. É verdade que as vezes me ofenderam ou eu ofendi por causa de incompreensão de vocabulário, são situações inevitáveis e acabamos por rir quando entendemos o erro.

Agora quando se trata de formar o texto, argumentação, discursos, o caldo engrossa! Ja notei que quando dirijo uma reunião, estou falando, falando, falando e vejo todos me olhando com aquela cara de « mas o que raio ela esta dizendo??? ». dai tento falar de outro jeito, outras frases, outros exemplos e o que levaria 10 minutos para se discutir acaba levando horas…

Geralmente vou direto ao assunto quando discutimos algo. Mas o Togolês tem o habito de dar voltas em volta do assunto, falar anedotas, contar experiencias e não fala qual o verdadeiro problema. Nessa hora, todos ao meu redor entenderam e eu estou boiando! A ultima vez que isso me aconteceu foi essa semana quanto o contador veio expor uma situação. Ele falou por 15 minutos, mostrou gráficos e tabelas, e falava, falava e eu não entendia onde ele queria chegar. Até que perguntei « vc esta tentando me dizer que o que temos não é suficiente para cobrir a despesa? » ele me responde « isso mesmo! É exatamente isso que estou dizendo ». aaaaaaaaaargh! Porque não disse isso de cara?????

No inicio do namoro eu o Jacques passávamos horas discutindo até eu entender o que ele queria dizer. E ele se chocava quando eu abordava diretamente um assunto. Ultimamente conseguimos conversar bem mais calmamente. Ele aprendeu que comigo pode ir direto sem ter medo, e é o que ele faz. Eu no entanto tento ilustrar mais o que digo. E assim vamos que vamos.

Acho que vou retomar aulas de francês pra ver se melhora…

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Trafic d'enfant

Preciso compartilhar com vcs esse video. trata-se de um conto de fada sobre o trafico sexual de crianças. essa pratica é inadmissivel, tem que acabar.

video em ingles (nao tem legendas).

The Candy Shop from Whitestone Motion Pictures on Vimeo.