tenho tanta coisa para contar que nem sei por onde começar...
estou preparando dois posts sobre penteados africano / cabelo afro, um post sobre meus gatos, outro sobre o trabalho da ADRA, enfim, tenho muito o que contar. mas acho que o mais "urgente" é lhes falar de um projeto pessoal que eu e o Jacques temos começado.
no fds da pascoa fomos a Atakpame. é uma cidade a exatamente 150,5 km do portão de casa. levamos 2h40 para chegar la pois a estrada não é das melhores. objetivo da viagem era, primeiramente, relaxarmos e aproveitarmos o passeio. em segundo lugar, ir buscar nosso novos gatinhos (dois filhotes lindos). em terceiro lugar "oficializar" nosso projeto.
ele é muito simples. no sábado a tarde, montamos nosso mini consultório móvel e fazemos consultas gratuitas, com distribuição de remédios (se tivermos alguns para doar).
nessa primeira edição, consultamos mais de 20 pessoas, além de fazermos a medição da pressão e glicemia em varias outras. distribuímos antibióticos, analgésicos, tratamentos contra malaria, etc. até uma injeção teve que ser feita ali na hora. para finalizar, distribuímos remédios contra vermes e parasitas.
uma mãe trouxe um bebê de 10 meses com um abcesso de quase 5cm de diâmetro no sovaco. gente, que dó! não sei como essa menininha linda conseguiu dormir com aquilo. explicaram que já faziam duas semanas que estava assim. infelizmente tínhamos esquecido o kit cirúrgico em Lomé, e o Jacques não pode fazer a incisão. demos a eles um xarope para a febre e dor, e mandamos ir ao hospital IMEDIATAMENTE. a mãe agradeceu muito e foi embora.
Infelizmente não temos nenhuma foto do "evento". É impossível ser fotografa, assistente, enfermeira, secretaria e esposa ao mesmo tempo ahahahahah.
no outro dia, o Jacques acordou muito agitado. tinha tido pesadelos com o bebê. conversamos e chegamos a conclusão de que, com 99,9% de certeza, aquela família não tinha ido ao hospital coisa nenhuma, já que tinham recebido um "produto de yovo" (entenda-se um remédio de branco - o xarope). pegamos o carro e saímos a procura da casa deles.
nossa sorte é que encontramos dois moleques que nos reconheceram e que nos ajudaram a encontrar a casa. adivinham só? o bebe estava ali, no colo da mãe, com uma pasta verde em cima do abcesso. o pai da criança explicou, com ar de esperto, que tinham dado o produto yovo e que ir ao hospital não era necessário, pois quando se mexe em abcessos da muita complicação. o Jacques ficou tao indignado! perguntou ao homem "qual é sua profissão?", ele respondeu "motorista", o Jacques então disse "desde quando motorista entende medicina? Eu sou médico, e digo que tem que ir ao hospital senão ela VAI MORRER!"
levou mais 20 minutos para convencê-los de ir ao hospital. tinham desculpas para tudo. mas não teve jeito de escapar, a mãe e o bebê subiram no nosso carro, o pai subiu na moto, e fomos todos para o hospital.
la os enfermeiros e o médico plantonista deram aquela bronca nos pais. a mãe chorava. o bebê chorava. o pai, depois de ter caído na real, pedia desculpas.
2 hora depois já tinham aberto o abcesso, limpado tudo, feito um curativo, receitado um monte de remédios. a menininha chorava como nunca chorou na vida (e a mãe junto), mas o que importa é que ela vai viver!
o que me deixou muito brava nessa historia, era que a família tinha dinheiro! o pai pagou por todos os remédios e consultas, eles moram numa casa boa, tem 4 filhos, o pai tem uma moto novinha. pq então tanta resistência em ir ao hospital? ignorância e crenças populares! não é neglicencia puramente dita, pois eles cuidam bem de seus filhos. mas existe esse sentimento de que "com o tempo passa". hospital? só quando não tem jeito mesmo ou e muitas vezes quando já estiver morto. esse comportamento se repete no pais inteiro, e mesmo fora do pais (até no Brasil!).
no nosso projeto, queremos visitar pelo menos uma vez por mês um vilarejo e fazer consultas como essas, mediante uma participação simbólica da população (falarei mais sobre isso outra vez). com U$150 conseguimos comprar material suficiente para consultar umas 30 pessoas (pressão + glicemia + consultas especificas. remédios são doados somente para casos especiais). com o kit cirúrgico, o Jacques pode fazer pequenas intervenções que não precisam de anestesia.
decidimos que, cada mês, economizaríamos para poder repor o estoque para um vilarejo no minimo. queremos encontrar meios de conseguir doações de remédios, material e dinheiro para poder atender mais pessoas. no futuro, nosso sonho é ter uma ambulância equipada para cirurgias e uma caravana que serviria de consultório/escritório. encontrando financiamento, estamos dispostos a, por 12 meses ou mais, rodar o pais todo, ficando uma a duas semanas em cada vilarejo, fazendo consultas como essas. temos até pensado em um nome: "Mercy Cars" (inspirado pelo projeto MercyShips - www.mercyships.org) até receberíamos voluntários por uma semana a vários meses (estudantes de medicina, fiquem ligados).
se vc quiser ajudar, quiser mais informações, ou tiver ideias/experiencias, por favor, entre em contato!
quero aqui aproveitar para agradecer a minha família da Suíça, principalmente ao oncle Raymond et tante Céline bem como o seu filho Yves et sua esposa Ana que nos deram muito material quando estivemos com eles em dezembro. Nous utilisons toutes les bandes et médicaments que vous nous avez donné! merci du fond du coeur!!