Hoje de manhã estava dirigindo o carro como todas as manhas, rumo ao escritório. O iPod no último tocando Seasons of love de Jonathan Larson quando me lembrei do que aconteceu no sábado a tarde.
Estávamos a caminho da igreja central para assistir a um concerto musical que esperávamos a muito tempo. O Jacques dirigindo, e eu do lado tagarelando como sempre. viramos a esquina antes de chegar na quadra da igreja e vejo ali, na minha frente, uma mulher. Ela estava andando apressada na calçada, vestida com uma saia jeans suja que ela tinha colocado na altura dos seios (como se fosse um vestido tomara-que-caia) e totalmente descabelada. Um bebê estava amarrado em suas costas. Lagrimas misturadas com ranho, baba e sangue escoriam nas bochechas e queixo. Ela me olhou. Um olhar de desespero, algo profundo, um grito de socorro. Eu fiquei assustada. Nunca tinha vista um olhar desses.
O Jacques também a viu, mas o transito era intenso e não pudemos parar o carro. Chegamos a altura da igreja, estacionamos, e imediatamente voltamos a pé até onde tínhamos visto a mulher.
A encontramos algumas quadras dali, sentada no chão, contando a alguns curiosos o que estava acontecendo. Assim que ela nos viu ela disse que sabia que viríamos. Ela disse que viu no meu olhar que eu poderia ajuda-la (gente, arrepio quando lembro disso). Então ela contou sua historia novamente.
Ela mora num cortiço, onde aluga uma cama por 50 francos por noite. Isso equivale a U$0,10. Ela trabalha como carregadora. Carregadores são pessoas que ficam perto dos mercados e feiras, e que carregam suas compras em equilíbrio na cabeça, em troca de algumas moedas. O pouco que ganha, usa para comprar alimentos para si e seu bebê, pagar o quarto, e gasta o restante em sodabi (álcool fortíssimo feito a base de seiva de palmeira), não necessariamente nesta ordem. Neste dia um pacote de macarrão e algumas outras coisinhas sumiram da bolsa de sua vizinha no cortiço. ela, que tinha bebido, foi então acusada do roubo. O que sumiu somava um pouco menos de mil francos (U$2,00). Espancaram a pobre mãe ameaçando mata-la com uma faca. Também pegaram seu bebê e o sacudiram com força segurando-o pelos pés. Ela conseguiu fugir, levando consigo o bebê e agora estava andando pelas ruas sem saber o que fazer ou para onde ir. Foi ai que ela nos viu no carro.
Imediatamente pegamos a mulher e o bebê e a levamos ao posto de saúde mais próximo. Apesar do Jacques ser um médico, ele não tinha consigo o material necessário para cuidar da mulher. Ela não conseguia andar direito pois fora mordida (sim, isso mesmo) no joelho por sua agressora. eu peguei o bebê no colo e fomos devagar ao centro. Gente, meu coração parte ao lembrar do bebê! Uma linda garotinha de 6 meses de idade, sorridente, jovial, mas visivelmente mal nutrida. O pano que sua mãe usava para amará-la fedia a álcool e urina. O bebê não usava fraldas.
No centro médico, tivemos que esperar pois o médico de plantão não estava (que irresponsabilidade!) e o Jacques não podia prescrever nada pois não tinha com ele seu bloco de receitas (sem o documento, a responsável da farmácia não libera nenhum remédio).
Quando o plantonista chegou, algum tempo depois, ele examinou rapidamente a mulher e preparou a receita para a farmácia. Nos hospitais públicos daqui não ha nenhum material e que o paciente tem que comprar tudo na farmácia. Quando digo tudo, é tudo mesmo pois até as luvas tivemos que comprar. Uma vez com o material na mão, ele então fez os curativos no nariz e no joelho da mulher (ainda bem que o nariz não estava quebrado) e lhe aplicou varias injeções.
Durante esse tempo todo fiquei com o bebê. Ele chorava desesperadamente querendo a mãe. Eu estava preocupada do bebê estar machucado também, mas o Jacques deu uma olhada nele e não havia nada de errado. Sò estava muito assustada com tudo o que tinha acontecido. Assim que voltou para as costas da mãe, começou a sorrir e a cantarolar como fazem os bebes dessa idade.
Levamos a mulher de volta para onde a achamos, pois ela conhecia alguém ali que poderia ajuda-la. Lhe demos ainda mil francos (U$2,00) para que ela pagasse o aluguel e comprasse algo para comer.
Ela agradeceu imensamente. A deixamos ali com aquela outra mulher, que nos prometeu cuidar dela. Falamos que passaríamos de vez em quando ali para poder ter noticias da mulher e do bebê.
...Em momento algum lembrei de perguntar seu nome... nem ela o nosso...
Nem preciso dizer que não vimos nada do concerto, né?
Ao ouvir a musica hoje de manha, comecei a pensar na vida, quão frágil ela é. Quão fácil é perder o controle das coisas. Quão pouca importância damos a nossos atos, aos acontecimentos do dia a dia. Lembrei dessa mulher, lembrei de seu bebê. Lembrei de muitas outras vidas que cruzaram a minha. Lembrei de momentos felizes e de outros tristes. Momentos de amor e de falta dele. Momentos breves, momentos longos, mas momentos de amor.
Faço minhas as palavras de Jonathan Larson: Meça sua vida em amor.
Fico imensamente que vc tenha se rendido a escrever o blog. Tenho certeza de que assim as suas experiências tão únicas vão poder impactar muitas vidas mais.
ResponderExcluirQue Deus continue te usando onde vc for!