A ADRA Togo mantem um projeto de microcrédito que envolve
mais de 130 grupos (grupos ativos atualmente) impactando a vida de quase 15’900
pessoas. Tive o privilegio de poder levar meus pais para conhecerem 3 desses tantos grupos.
Tratam-se dos grupos do vilarejo de Adzoguidji Kopé. Nesse vilarejo
de cerca de 500 pessoas, estes três grupos cultivam abacaxi que eles vendem no
mercado local, mandioca que é transformada em gari (farinha de mandioca) e
tapioca, além de fabricarem esteira de juncos usadas como colchão pela maioria
do povo. Estamos também construindo um centro de alfabetização para adultos e um um grande galinheiro (para os ovos e a carne - coitadinhas das galinhas!).
Eu tinha mandado o recado pela nossa equipe que os estaríamos visitando
naquele dia. Eles nos aguardavam ansiosos! Tinham varrido (isso mesmo, varrido) todo o vilarejo! Detalhe que
o chão é de terra batida e areia! Dava pra ver as marcas da vassourinha de
palha que eles usaram. Eles aguardavam a visita dos Yovos. Tinham até composto
uma musica que dizia « gente do vilarejo, não se assuste, pois nos ligaram
da ADRA avisando que hoje teremos uma visita especial ».
Assim que chegamos, começaram a nos mostrar cada cantinho do
vilarejo. Cumpriram seu trabalho de guia turístico com muito zelo. Explicavam tudo
calmamente na língua local (estávamos com uma tradutora da ADRA). Estavam orgulhosos
do que tinham.
Eles foram super mega hyper hospitaleiros, e encheram meus
pais de presentes : quilos de gari, tapioca, coco verde colhido naquele mesmo
dia, frutinhas locais, amendoim, e não me lembro mais o que. Também cantaram e
dançaram.
Um dos professores da escola local tinha faltado, e algumas
crianças estavam ao léu, brincando entre as casas de barro. Quando viram meus
pais, vieram correndo e os seguiram durante a visita inteirinha. Todos queriam
ser filmados ou fotografados. Davam altas gargalhadas e gritos de alegria
quando meu pai lhes mostrava na maquina digital o que ele tinha acabado de
filmar. Meu pai simpatizou tanto com esses pimpolhos que ele lhes mostrou um
truque de como equilibrar 6 pregos em um só. Foi uma festa! Até os adultos
ficaram curiosos e vieram aprender o truque. Um dia talvez eu lhes conte como
fazer ;)
Na hora da despedida, meus pais saudaram um a um com um
aperto de mão que se termina com um estralo de dedo (conhecem? Se não
conhecerem, quando cruzarem com meu pai, peçam para ele mostrar). Foi hilario. Cada
um queria apertar a mão dos meus pais e dar um estralo mais alto do que o do
vizinho.
Parece que de todos os passeios e atividades que tivemos aqui com meus pais, essa visita foi a que eles mais gostaram. Se sentiram a vontade com esse povo simples e acolhedor. Eles estão tranquilos, longe do barulho e do stress da cidade, e vivem cada dia tranquilamente. As crianças crescem em comunidade, junto a natureza. Aprendem com seus pais o trabalho da terra, e os valores das tradições. são pessoas simples, muito simpáticas.
Enfim, foi
um dia cansativo, mas um dia muito bom! O povo da ADRA é feliz e nos faz
feliz!!
Abacaxi da ADRA: qualidade garantida eheh
esse tipo de abacaxi pode pesar varios quilos! me deram um com quase 30cm de diâmetro (eu juro!). Bem docinho, de longe o melhor que já comi!
Plantação de abacaxi. Mal posso esperar o tempo da colheita, me prometeram uns abacaxis suculentos :D
alguns cultivadores com roupa pra lavoura (estavam com vergonha de serem fotografados vestidos assim).
O vilarejo
Crianças seguindo meu pai
Crianças seguindo minha mãe
a pequena Josée estava chorando pois se assustou no tumulto que as crianças criaram para ver as fotos na maquina do meu pai
Muitas vezes brinco com meus amigos ameaçando ir ver o feiticeiro do vilarejo ao lado caso não fizerem o que peço. Claro que se trata de uma brincadeira, mas dizem que toda brincadeira tem um fundo de verdade…
A influencia de crenças em feitiçaria e encantamentos aqui é incrível. O Jacques, por exemplo, tem suas regras baseadas nessas crenças. Sendo médico, ele recebe regularmente presentes de agradecimento de seus pacientes. Mas ele nunca usa os presentes, e se for comida, ele joga tudo fora. Ele me explicou que costumam jogar feitiços ou colocar substancias estranhas na comida. Moças oferecem bolos e guloseimas a garotos para enfeitiça-los de amor…
Tenho o costume de pedir para o porteiro ir buscar sakumi cudo maionese (pão baguete com maionese) para meu café da manha. Hoje o porteiro não veio, então pedi para o motorista ir buscar. Ele foi e me trouxe um lindo pão. Quando entrei na minha sala para come-lo, minha secretaria entrou também e me disse com um olhar preocupadíssimo « a senhora deveria tomar cuidado com quem ela manda buscar comida. Nunca se sabe quem vai enfeitiçar seu pão para poder domina-la » e saiu. Eu fiquei por alguns segundos sem entender o que ela queria dizer (confio totalmente no meu motorista) e decidi comer o pão.
Dizem que no togo muitos animistas se dizem católicos, mas todo católico é animista. Ha um medo constante dos feiticeiros. Nos vilarejos muitas pessoas idosas são consideradas feiticeiras. Aquela vovó que sofre de parkinson sera considerada feiticeira pois vive tremendo, e a tremedeira é prova de que os espíritos estão com ela. Aquele vovô que não diz coisa com coisa, passeia pelo vilarejo com olhar vago, esquece de se vestir, tudo por causa do alzheimer é considerado um feiticeiro devido a seu comportamento estranho.
Imaginemos que você esta dormindo e tem um pesadelo horrível. Acorda assustado e pula da cama. Ao pular torce o tornozelo. Isso é sinal que alguém te enfeitiçou. O feitiço era para que você se machucasse e para isso então te mandaram esse pesadelo. Um medico comum não poderá curar seu tornozelo. Você tem que ir ver um feiticeiro para que ele fale as formulas magicas certas e lhe dê instruções e poções para que seja curado. Devido a essa crença, muitas pessoas morrem pois usam tratamentos duvidosos que pioram a sua situação.
Mesmo sendo cristãos, adventistas, muitos ainda sofrem com essas crenças e coisas acontecem. Coisas estranhas realmente acontecem. Não vou dizer se acredito ou não nisso tudo. Soh sei que diariamente convivo com este tipo de crença. E que agora, apos ter comido a baguete, estou com dor de barriga... :S
Alguém bate a sua porta com força. São 3 horas da manha e vc acorda assustado. Levanta aos tropeços e vai atender. É seu vizinho, lhe dizendo que soldados estão a caminho e que se quiser salvar sua pele é melhor dar o fora imediatamente.
Você, ainda desorientado, volta para dentro da casa, acorda toda a família e lhes da a noticia. Já se ouve lá fora barulho de camiões e alguns tiros. O que pegar, o que deixar? Não ha tempo de pensar. Tem que fugir imediatamente.
Foge com sua família pelos fundos da casa. Esse é o começo de uma longa jornada.
A maioria dos que estão lendo meu blog nunca passaram por uma situação dessas. Eu mesma nunca passei. Sempre ouvi falar de conflitos, guerras, acampamento de refugiados, mas nunca presenciei em carne e osso. Eram somente imagens na tv. Isso até eu chegar aqui e visitar pela primeira vez um campo de refugiados do UNHCR.
O primeiro acampamento que visitei abrigava togoleses que tiveram que abandonar seus lares por causa das enchentes em outubro 2010. Um acampamento de refugiados normalmente não é o lugar mais feliz do mundo, mas neste caso, apesar da catástrofe, todos os presentes nos acolheram com muito calor e alegria. Afinal suas vidas não estavam mais ameaçadas já que estavam em terrenos seguro, longe daquela água toda. Segunda feira fui visitar outro acampamento. Neste estão abrigados pessoas que fugiram a Guerra na Costa do Marfim. São pessoas que tiveram que largar tudo do dia pra noite, e puseram suas vidas em risco para sair daquele país. Alguns atravessaram a pé o Ghana (pais que fica entre a Costa do Marfim e o Togo) pois não queriam, não podiam ficar num pais onde não se falasse sua língua pois no ghana fala-se inglês, no Togo e na Costa do Marfim, francês.
O acampamento ainda estava sendo montado e os refugiados não haviam chegado ali. Pude tirar essas fotos que vocês estão vendo. Cada barraca acolhe normalmente 5 pessoas, mas em tempo de crise colocamos ate 15 pessoas nelas. De dia faz um calor infernal, e quando chove, se não estiver bem montada, molha tudo la dentro. Quando sai o sol, a água começa a se evaporar e a barraca vira uma sauna…
Para ajudar, você não sabe quem vai encontrar no acampamento. São pessoas que fugiram, mas fugiram do que? Alguns simplesmente fugiram, mas outros cometeram atos horríveis e dai fugiram. Pode acontecer que ao fugir um inimigo, vc o encontre no acampamento pois ele também fugira. O que lhe garante que ele não vai querer te matar ali agora? É por isso que todo acampamento é cuidadosamente guardado. No nosso caso aqui ha 24/24, 7dias/7 um esquadrão militar, outro policial alem de guardas civis e das equipes de ordem o UNHCR e das outras ONGs que trabalham ali.
No acampamento tudo é organizado. Não se pode cozinhar em qualquer lugar, não se pode tomar banho a qualquer momento. Tudo sem seu horário e local certo. Sem isso, não ha como conviver juntos. Alimentos, itens de higiene, roupas, calçados, remédios são distribuídos dentro do acampamento com um controle meticuloso. A ADRA, por exemplo, costuma fazer distribuições e enviar agentes para dar orientações sobre higiene e combate a AIDS.
Sim, combate a AIDS pois em tempo de conflito muitos procuram consolo no sexo. tente amontoar mais de 4500 pessoas de todas as idades e sexo num único lugar por um longo período para ver o que acontece… por isso é importantíssimo fazermos campanhas de orientação e combate a AIDS.
Largar tudo para um destino desconhecido, sem data para voltar para casa… e quando consegue voltar para casa, é para encontra-la destruída ou saqueada… as vezes com novos habitantes la dentro. Este é o destino de um refugiado.
Sempre gostei de frequentar igrejas pequenas. No brasil tentei ser membro de igrejas pequenas, grupos, enfim, algum lugar onde eu nao seria mais um numero no rol de membros como nas grandes igrejas.
Ao chegar aqui, já fui perguntando qual era a menor igreja mais proxima de minha casa. Me enrolaram me dizendo que eu estava entre varias igrejas e que eu deveria ir ade Forever ou de Adidogomé. Me explicaram que a de Forever era a igreja do pessoal da União, e que eu estaria bem la. Na hora recusei. Não quero frequentar uma igreja porque « pessoas importantes » a frequentam. Tou fora. Seria Adidogomé então. Expliquei que procurava uma igreja pequena e me juraram de pé junto que era a igreja perfeita para mim. Então eu fui.
Chegando la me deparei com uma igreja de quase 300 membros. Um prédio grande, com muitos bancos, aparelhos de som, salinha das crianças e um bom coral. Enfim, uma ótima igreja, mas nem um pouco parecida com o que eu procurava. 300 membros? Não precisam de mais um! Queria outra igreja mas não sabia onde encontrar.
Conheci o Jacques e engatamos o namoro e ele então me levou a igrejinha de seus pais. Uma igreja de 60 membros animadíssimos, um coralzinho de 10 membros e muitas crianças. La eles tinham um teclado, no qual o único musico da igreja tocava com dois dedos e sempre na clave de do (depois me explicou que transpõe todas as musicas de ouvido pois não sabe tocar nas outras claves). Até que enfim tinha encontrado a minha igreja. Eu queria ficar na igrejinha de Agoe 2.
Devido as paredes de palha e o teto de zinco, faz um calor infernal (na igreja haha) la dentro. Imagine então quando esta cheia de gente! No primeiro sábado quase desmaiei então o Jacques me proibiu de sentar la dentro, sendo que eu passei vários sábados assistindo o culto olhando pela janela aberta, sentada a sombra de um limoeiro.
Outro problema é a roupa. Aqui ainda se mantem uma linha muito tradicional na igreja, sendo que mostrar os joelhos ou os ombros, decotes ousados e blusas curtas são totalmente proibidos. Mas gente, sinto muito, muuuuuuito calor vestida como eles exigem, então uso minhas roupas de Yovo (branco, lembra?) e eles que me engulam assim.
Minha igrejinha precisa de muita coisa. Precisa primeiro ser construída de verdade. Ao ver as fotos talvez vc pense que todas as igrejas são assim aqui. Pois bem, vc acha que uma igreja de palha no meio da cidade de são paulo é algo normal? Não? Pois bem, aqui também não! Estamos numa cidade, com prédios, ruas asfaltadas, hotéis de luxo, supermercados, porque seria normal termos uma igreja de palha como se estivéssemos no meio do mato? Para aqueles que acham que a africa é um continente cheio de pessoas sub-desenvolvidas morando no meio do mato, por favor, mudem esse pensamento. É o mesmo que pensar que no brasil so tem favelas, fome e carnaval!
Então, voltando ao assunto (desculpe pessoal, as vezes me empolgo), minha igreja tem muito potencial humano, e esse povo não tem medo de trabalhar. Sempre estão organizando campanhas, vigílias, semanas de oração, concertos, eventos JA, etc. Mas acompanhando a ideia do Jonas, ter uma igreja fixa e bonita faz toda a diferença. A única coisa que difere da situação da guine Bissau é que minha igreja, mesmo tão precária, sempre esta cheia. Bem cheia!
Quarta feira passada, ao levantar fui até o termómetro para ver qual a temperatura do dia e, milagre, este marcava 26°C! com essa temperatura eu poderia suportar usar o bazin que o Jacques me deu.
O bazin (pronunciar bazã) é um tecido usado para roupas chiques. Este é mais usado no Mali mas virou moda em toda a Africa do Oeste. Trata-se de um tecido trançado engomado por imersão em um banho de goma arábica, cheio de desenhos que são incorporados no tecido com um bloco de madeira no qual o artesão bate com um martelo. Para tornà-lo mais nobre, costumamos pedir que sejam bordados outros desenhos com fois dourados, prateados ou coloridos.
Devido a goma, é um tecido duro (lembra plástico) e quase impermeável.
Tecido chiquérrimo e… quente!!! Ao vê-lo pela primeira vez pensei que não poderia usa-lo nunca! A temperatura media aqui é 30°C na sombra, imagine então dentro dessa roupa? Mas vejo todos usando, seria eu a única a não suportar esse calor?
O Jacques me deu dois bazins, um grená e outro azul, ambos ricamente bordados. São lindos, mas coloco-os somente em dias frios (ou seja, raramente). Se vcs vissem o brilho nos olhos dele naquela manha ao me ver vestido com o bazin azul… todo orgulhoso! Realmente essa roupa é importante para eles. Usarei mais vezes…
Se eu lhe disser "Alassane Ouattara" ou "Laurent Gbagbo", sabe de quem estou falando? Qual o impacto dos atos desses dois homens em sua vida? Aposto que, no maximo, vc deve ter dedicado uns 2 minutos de sua vida a pensar sobre eles, se ao menos vc pensou…
O que leva um homem a sentar numa cadeira e dizer « daqui não saio, daqui ngm me tira! »?
Eu não consigo entender como tudo isso pode chegar a este ponto. Bom, para quem esta boiando, la vai um resumo da situação.
Em novembro de 2010, a Costa do Marfim organizou a eleição do seu novo presidente. Laurent Gbagbo, presidente do momento concorre contra Alassane Ouattara, seu arqui-inimigo (se não for, azar, a historia fica mais interessante assim). Eleições caóticas, com fraudes certamente, enfim, mas no fundo mesmo nada de tao diferente do que acontece em outros países que se dizem democráticos.
Um rolo incrível na hora de anunciar os resultados! Apos dias de atraso, é anunciando que Alassane Ouattara ganhou as eleições como novo presidente da Costa do Marfim. Houve muita contestação, briga, protestos. Laurent Gbagbo jura de pé juntos que ele ganhou a eleição e que tudo não passa de uma enorme farsa.
Até ai tudo bem, mas agora vem o que, ao meu ver, uma decisão totalmente idiota : Laurent Gbagbo decide não entregar o cargo ao vencedor da eleição. Simples assim. Ele simplesmente declara que houve fraude e que ele ganhou e que continua a ser o presidente. Eita criança mimada viu!
Meses passam, Gbagbo não larga a cadeira, Ouattara é reconhecido pela comunidade internacional como o novo presidente, e começa a trabalhar instalado em um hotel perto da sede do governo já que seu rival não quer desocupar o local.
Chegamos no mês de março 2011, Ouattara perde paciência (poxa vida, já faz mais de 4 meses que ele ganhou e ainda não resolveram a situação). Ele decide usar as forças para tomar posso do que lhe é de direito. Foi ai que a coisa ficou preta.
O exercito de Ouattara ataca o de Gbagbo… mas não são soldados que morrem, são civis. Civis presos entre estes dois grupos que lutam pelo poder. Um homem teimoso e outro cansado de esperar, ambos com sede de poder, lutam e em sua luta matam… não… assassinam milhares de pessoas inocentes.
O que aconteceu de fato, nunca saberemos. Mas gente, pensar que quem morreu se envolveu de alguma forma no conflito é erradíssimo quando vemos que até crianças morreram nos ataques. Isso se chama genocídio! Quem matou quem? Não sabemos exatamente, mas que foram mortos foram.
Dai Gbagbo sentido o cerco se fechar corre se esconder em seu bunker embaixo de sua casa - e nao para de repetir "eu ganhei a eleição". Fica escondido la dentro quase uma semana, brincando de « vou me render… não vou não… tou saindo… saio não… ». hoje as 14h00 (horário local) após mais um bombardeio, prenderam o homem. O conflito terminou. Será?
Eu pessoalmente culpo primeiramente Gbagbo por sua teimosia. Houve fraude nas eleições? ok, tudo bem, use os meios legais para reclamar e exigir que justiça seja feita ao invés de criar uma situação que iria terminar num banho de sangue. e não venha me dizer que não sabia. todos sabiam. Gbagbo, tu tens sangue de inocentes em suas mãos.
Em seguida Ouattara também não é tao inocente assim. Afinal sabemos que seus militares estavam la na hora da matança… quem defendeu o povo naquela hora? onde eles estavam para protege-los? Sera que eles não tomaram parte da matança também? Como responsável pelo seu exercito, Ouatarra, você não protegeu seu povo e também tem sangue inocente em suas mãos.
Nem vou começar a falar da comunidade internacional… tou ficando nervosa!
E nos nisso tudo? Quem realmente se preocupou com o que estava acontecendo? Se eu estivesse no Brasil, teria ouvido falar disso e pensaria « aff, mais um rolo politico africano que vai terminar em guerra » e voltaria para meus afazeres (sei que muito de vocês fizeram isso). Mas o fato de viver tao perto deste pais e agora, através da ADRA, ter contato com os refugiados deste pais, pessoas que tiveram que largar tudo para trás (gente, TUDO) para salvar suas vidas, me sinto envolvida neste conflito. E me sinto culpada por não ter feito mais para ajudar. Nada.
Os zemidjans, fazem parte, ao meu ver, das piores coisas que existem em Lomé. Bela maneira de começar um novo post, hein Leiza :s
A cidade de Lomé tem mais ou menos 700 mil habitantes e o sistema de transporte publico é muito precário. Para se locomover, você tem a opção de :
Ter o seu próprio veículo
Pegar o transporte publico
Dividir o táxi
Alugar o táxi
Pegar um zemidjan
Pegar a bicicleta
Ir a pé
Ter o seu próprio veículo : de longe a melhor opção. Saia quando quiser. Único inconveniente é que o transito aqui é uma loucura! Um dia postarei um vídeo que fiz de um engarrafamento no qual ficamos presos por 2 horas… nunca vi nada igual.
Pegar o transporte público : existem somente alguns poucos ônibus, e os horários são muito confusos. Eu pessoalmente até o presente momento so vi ônibus da faculdade de Lomé circulando por ai, nunca vi os outros, mas juram de pé junto que existem… ok, aceito pela fé… Dividir um táxi : Os táxis funcionam como se fossem ônibus. para ira o supermercado mais próximo da minha casa pego um taxi no ponto da esquina (chamado Lomegan) e desço 3 pontos depois no posto de gasolina do Atikoumé. Para esse trajeto pago 100XOF (U$0,21). Se quiser ir a igreja de Adidigomé, pego o mesmo táxi até Atikoumé e la faço baldeação e pego outro em direção a Adidogomé (mais 200XOF – U$0,42). O inconveniente : táxis caindo aos pedaços e, como num ônibus, o motorista para em todos os pontos e pega passageiros… eu disse como num ônibus… quer dizer que eles tentam colocar o máximo de pessoas dentro, com suas bolsas, sacolas, malas, galinhas, etc. vimos no outro dia um táxi com 9 pessoas dentro sem contar as bagagens… sem contar que para avisar que tem mais um lugar no carro, eles buzinam feito loucos…
Alugar o taxi : somente quando você vai para algum lugar longe ou quer simplesmente ter a exclusividade do táxi. Mesma coisa que para dividir o táxi, vc para no ponto e espera. Quando passa um táxi vazio vc grita « à louer!! » e se o motorista aceitar ele para. Dai barganha para acertar o valor. Se eu quiser ir a igreja de Adidogomé alugando um táxi vou pagar entre 1'000XOF e 1'500XOF (U$2,17 e U$3,26). Inconveniente : táxis caindo aos pedaços, motoristas dirigindo como na formula 1. Alem disso, por eu ser branca (sim sim, outro dia eu explico) eles me dão o preço yovo (quer dizer branco) que chega a ser 3 a 4 vezes mais acima do normal. Bicicleta : Para pessoas corajosas ou suicidas. Vocês não te ideia do transito aqui, pode ser atropelado a qualquer momento. Deixe a bicicleta para momentos de lazer beeeem longe da cidade.
Ir a pé : muito bom para a saúde… o supermercado mais próximo da minha casa fica a 2 km, o meu escritório a 7 km, o Jacques mora a 6 km da minha casa, a feira fica a 23km e a praia fica a 25 km… média de 30°C na sombra por aqui… e ai, ainda quer passear a pé pela cidade?
Sobrou os Zemidjans… arrrgh! Zemidjan significa « me leve rápido ». São motos táxis que podem te levar para qualquer lugar da cidade por um preço irrisório (atravessar a cidade inteira vai custar, no máximo, 500XOF – U$1,08). Para ser zemidjan, basta ter uma moto. Soh isso. Não precisa de carteira de habilitação, de licença, de autorização. Nada! Sabe andar de moto? Pode ser zemidjan! Não sabe andar? Tudo bem aprende sendo zemidjan. Muitas pessoas desempregadas começaram a ser zemidjan como bico. A febre pegou e agora ele invadiram a cidade. Pessoas dos vilarejos que nunca viram um farol na vida se tornam zemidjan. A maioria nunca assistiu a uma única aula de transito, e eles não sabem quais são as regras. Na verdade a regra deles é que não existe regras. Faça o que quiser, o principal é chegar onde vc quer chegar. Parar no farol vermelho pra que? Respeitar placas de sinalização pra que? Andar de capacete pra que? Alguns bebem para trabalhar o dia todo sem comer. Alem de serem tao irresponsáveis, eles nos deixam nervosos ao buzinar sem parar para chamar clientes. Se ficar parado na calçado 5 minutos, no minimo uns 15 zemidjans vão passar por você buzinando e perguntando « vai subir? ». sem contar que xingam quem fica na sua frente e vivem provocando acidentes. Eu nunca peguei um zemidjan. Morro de medo. Não vim para a africa para morrer num acidente de moto.
Vejam soh o clipe de um musica que fizeram aqui em homenagem aos zemidjan (não sei se choro ou se começo a rir…)
Alguns anos atras descobri a arte de carregar os bebês. Nao carregar no colo como o que ja conhecemos, mas carrega-los nas costas ou na frente, amarrados por um echarpe.
Gente, a sensação de ter esse pequeno ser grudadinho em suas costas é fantástica! Vocês precisam tentar!
Pesquisei bastante sobre o assunto, e descobri um site ótimo que ensina como amarrar, dá dicas de saúde, testemunhos, e até conselhos para escolher a echarpe certa para seu bebê. Sò tem um detalhe... o site inteiro esta em francês! mesmo assim, ai vai o link: http://www.portersonbebe.com acho que mesmo sendo em francês pode ser útil pois contem fotos e aulas em vídeo para ensinar como amarrar.
Recado para as mulheres: Quem disse que somente a mãe pode carregar o bebê? Hora dos homens porem a mão na massa também! Qualquer um pode carregar o bebê ;)
Alguns motivos pelos quais vc deveria carregar seu bebê:
Temperatura Ideal – O bebê vai conseguir regular a sua temperatura com a do carregador e não passará nem calor, nem frio..
Contato corporal permanente – ajuda no desenvolvimento do sistema nervoso do bebê. Este também vai sempre sentir o seu cheiro do carregador e ouvir seus batimentos cardíacos, algo tranquilizante.
Necessidade percebidas mais facilmente – assim que o bebê ficar com fome, o carregador vai sentir, sem que este tenha que chorar. Mesma coisa referente a fraldas sujas e outras necessidades.
Participação na vida familiar – o bebê vai observar a vida familiar de mais perto e vai aprendendo rapidamente.
Estimulação motora – o bebê se mexe com a pessoa que o carrega. Ele também vai fortalecer sua musculatura ao se segurar com os braços e as pernas ao carregador.
Segurança física e psicológica – a criança fica protegida contra agressões. Se ele se sentir em perigo, ele vai se aninhar no carregador e vai se sentir em segurança.
Menos choro – o bebê carregado chora menos. Foi provado por estudos antropológicos que o fato de carregar o bebê reduz o choro em 43% de dia e 51% a noite (não são estatísticas inventadas como as do Barney Stinson. Foram publicados na revista Pediatrics em 1996)
Sono fácil no momento certo - o bebê quando carregado dorme normalmente. Melhor ainda, ele dorme sempre que sentir necessidade.
Melhor digestão – a posição vertical ajuda na digestão. Assim é mais fácil arrotar e também diminui refluxos.
Confiança – o carregador fica com os braços livres para seus afazeres. O bebê se sente bem e suas necessidades são atendidas rapidamente. O bebê se sente em segurança.
Possibilidade de se isolar do mundo se preciso – quando o bebê não quer mais interagir com o mundo externo, ele cai no sono, embalado pelos movimentos do carregador.
A coluna vertebral se endireita progressivamente – durante 9 meses o bebê ficou encurvado no útero de sua mãe. Ao nascer, ele terá mais ou menos 1 ano para endireitar a coluna. Ao deitar um bebê de costas, forçamos a coluna dele e este não se sente a vontade. O fato de carrega-lo o ajuda a manter uma posição confortável e pouco a pouco ir se endireitando.
Não sei você, mas eu vou carregar o meu bebê (e o pai dele também, pode apostar! aie dele se ele recusar mouaahahahahahahah).
Hoje de manhã estava dirigindo o carro como todas as manhas, rumo ao escritório. O iPod no último tocando Seasons of love de Jonathan Larson quando me lembrei do que aconteceu no sábado a tarde.
Estávamos a caminho da igreja central para assistir a um concerto musical que esperávamos a muito tempo. O Jacques dirigindo, e eu do lado tagarelando como sempre. viramos a esquina antes de chegar na quadra da igreja e vejo ali, na minha frente, uma mulher. Ela estava andando apressada na calçada, vestida com uma saia jeans suja que ela tinha colocado na altura dos seios (como se fosse um vestido tomara-que-caia) e totalmente descabelada. Um bebê estava amarrado em suas costas. Lagrimas misturadas com ranho, baba e sangue escoriam nas bochechas e queixo. Ela me olhou. Um olhar de desespero, algo profundo, um grito de socorro. Eu fiquei assustada. Nunca tinha vista um olhar desses.
O Jacques também a viu, mas o transito era intenso e não pudemos parar o carro. Chegamos a altura da igreja, estacionamos, e imediatamente voltamos a pé até onde tínhamos visto a mulher.
A encontramos algumas quadras dali, sentada no chão, contando a alguns curiosos o que estava acontecendo. Assim que ela nos viu ela disse que sabia que viríamos. Ela disse que viu no meu olhar que eu poderia ajuda-la (gente, arrepio quando lembro disso). Então ela contou sua historia novamente.
Ela mora num cortiço, onde aluga uma cama por 50 francos por noite. Isso equivale a U$0,10. Ela trabalha como carregadora. Carregadores são pessoas que ficam perto dos mercados e feiras, e que carregam suas compras em equilíbrio na cabeça, em troca de algumas moedas. O pouco que ganha, usa para comprar alimentos para si e seu bebê, pagar o quarto, e gasta o restante em sodabi (álcool fortíssimo feito a base de seiva de palmeira), não necessariamente nesta ordem. Neste dia um pacote de macarrão e algumas outras coisinhas sumiram da bolsa de sua vizinha no cortiço. ela, que tinha bebido, foi então acusada do roubo. O que sumiu somava um pouco menos de mil francos (U$2,00). Espancaram a pobre mãe ameaçando mata-la com uma faca. Também pegaram seu bebê e o sacudiram com força segurando-o pelos pés. Ela conseguiu fugir, levando consigo o bebê e agora estava andando pelas ruas sem saber o que fazer ou para onde ir. Foi ai que ela nos viu no carro.
Imediatamente pegamos a mulher e o bebê e a levamos ao posto de saúde mais próximo. Apesar do Jacques ser um médico, ele não tinha consigo o material necessário para cuidar da mulher. Ela não conseguia andar direito pois fora mordida (sim, isso mesmo) no joelho por sua agressora. eu peguei o bebê no colo e fomos devagar ao centro. Gente, meu coração parte ao lembrar do bebê! Uma linda garotinha de 6 meses de idade, sorridente, jovial, mas visivelmente mal nutrida. O pano que sua mãe usava para amará-la fedia a álcool e urina. O bebê não usava fraldas.
No centro médico, tivemos que esperar pois o médico de plantão não estava (que irresponsabilidade!) e o Jacques não podia prescrever nada pois não tinha com ele seu bloco de receitas (sem o documento, a responsável da farmácia não libera nenhum remédio).
Quando o plantonista chegou, algum tempo depois, ele examinou rapidamente a mulher e preparou a receita para a farmácia. Nos hospitais públicos daqui não ha nenhum material e que o paciente tem que comprar tudo na farmácia. Quando digo tudo, é tudo mesmo pois até as luvas tivemos que comprar. Uma vez com o material na mão, ele então fez os curativos no nariz e no joelho da mulher (ainda bem que o nariz não estava quebrado) e lhe aplicou varias injeções.
Durante esse tempo todo fiquei com o bebê. Ele chorava desesperadamente querendo a mãe. Eu estava preocupada do bebê estar machucado também, mas o Jacques deu uma olhada nele e não havia nada de errado. Sò estava muito assustada com tudo o que tinha acontecido. Assim que voltou para as costas da mãe, começou a sorrir e a cantarolar como fazem os bebes dessa idade.
Levamos a mulher de volta para onde a achamos, pois ela conhecia alguém ali que poderia ajuda-la. Lhe demos ainda mil francos (U$2,00) para que ela pagasse o aluguel e comprasse algo para comer.
Ela agradeceu imensamente. A deixamos ali com aquela outra mulher, que nos prometeu cuidar dela. Falamos que passaríamos de vez em quando ali para poder ter noticias da mulher e do bebê.
...Em momento algum lembrei de perguntar seu nome... nem ela o nosso...
Nem preciso dizer que não vimos nada do concerto, né?
Ao ouvir a musica hoje de manha, comecei a pensar na vida, quão frágil ela é. Quão fácil é perder o controle das coisas. Quão pouca importância damos a nossos atos, aos acontecimentos do dia a dia. Lembrei dessa mulher, lembrei de seu bebê. Lembrei de muitas outras vidas que cruzaram a minha. Lembrei de momentos felizes e de outros tristes. Momentos de amor e de falta dele. Momentos breves, momentos longos, mas momentos de amor.
Faço minhas as palavras de Jonathan Larson: Meça sua vida em amor.